A origem do folclore tem duas respostas, e as duas estão certas. A palavra “folclore” nasceu em 22 de agosto de 1846, quando o escritor inglês William John Thoms juntou os termos folk (povo) e lore (saber) para nomear o “saber do povo”. Já as tradições que a palavra descreve, como lendas, cantigas, festas, crenças e brincadeiras, são muito mais antigas e passam de geração em geração desde que existem comunidades humanas. No Brasil, o folclore se formou a partir do encontro das culturas indígenas, africanas e europeias, com acréscimos de imigrantes que chegaram depois.
Esse pequeno resumo já responde à pergunta, mas a história completa ajuda a entender por que comemoramos o Dia do Folclore em agosto, por que o Saci tem traços de mais de uma cultura e por que estudiosos tratam o folclore como algo vivo, que muda o tempo todo.
De onde vem a palavra folclore
Até meados do século XIX, os costumes populares eram chamados na Inglaterra de “antiguidades populares” ou “literatura popular”. William John Thoms, um antiquário interessado nessas tradições, achava essas expressões pouco precisas. Em uma carta enviada à revista literária The Athenaeum, assinada com o pseudônimo Ambrose Merton, ele propôs um termo novo: folk-lore.
A ideia era simples e poderosa. O termo reunia num só nome tudo o que o povo sabe, pratica e transmite sem precisar de escola ou de livro: superstições, provérbios, baladas, costumes de festas, histórias contadas à beira do fogo. Com o tempo, o hífen caiu e a palavra se espalhou por várias línguas. Em português, foi adaptada como “folclore”.
O significado de “folk” e “lore”
- Folk: povo, gente comum, a comunidade.
- Lore: saber, conhecimento tradicional, conjunto de ensinamentos transmitidos.
Juntas, as duas partes formam a expressão “saber tradicional do povo”, ou “sabedoria popular”. É por isso que folclore não se resume a lendas: ele inclui comidas, danças, medicina caseira, artesanato, jogos infantis e modos de falar.
Antes do nome: as raízes antigas do folclore
Muito antes de Thoms, as sociedades já contavam mitos para explicar o mundo, celebravam colheitas, cantavam para ninar crianças e ensinavam regras por meio de histórias. Essa transmissão acontecia principalmente pela oralidade: alguém contava, outro aprendia e recontava, muitas vezes mudando detalhes.
No início do século XIX, o interesse por esse material cresceu na Europa. O movimento romântico valorizava as raízes nacionais e enxergava nas tradições camponesas a “alma” de cada povo. Os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, na Alemanha, ficaram famosos por reunir contos populares que circulavam oralmente, e outros pesquisadores fizeram trabalhos semelhantes em diversos países. Quando a palavra “folclore” surgiu, ela veio justamente para dar nome a esse campo de estudo que já estava ganhando força.
Por que a oralidade é tão importante
Boa parte do folclore sobreviveu sem nunca ter sido escrita. Isso explica algumas de suas características mais marcantes:
- Autoria desconhecida: ninguém sabe quem inventou a primeira versão de uma lenda ou cantiga.
- Variações regionais: a mesma história muda de nome, de personagem ou de final dependendo do lugar.
- Adaptação constante: cada geração acrescenta elementos do próprio tempo.
- Aceitação coletiva: só vira folclore aquilo que a comunidade adota e repete.

Qual é a origem do folclore brasileiro
O folclore do Brasil é resultado de um encontro, nem sempre pacífico, de povos muito diferentes. Os estudiosos costumam falar em três grandes matrizes, que se misturaram ao longo de séculos.
A matriz indígena
Os povos originários já tinham mitos, rituais, músicas, técnicas de cura com plantas e conhecimento profundo da natureza muito antes da chegada dos portugueses. Muitas figuras do imaginário brasileiro têm raízes indígenas, como o Curupira, protetor das matas, a Iara, ligada às águas, e as narrativas sobre a origem de alimentos como a mandioca. Hábitos como dormir em rede e o uso de diversos ingredientes nativos também vêm dessa herança.
A matriz africana
Os africanos escravizados trazidos ao Brasil, vindos de diferentes regiões e povos, mantiveram e recriaram suas tradições mesmo sob violência e repressão. Dessa matriz vêm ritmos, danças, instrumentos, práticas religiosas, culinária e manifestações como a capoeira, o jongo e o maracatu. Muitos personagens e histórias populares também carregam elementos africanos.
A matriz europeia
Os portugueses trouxeram festas religiosas, como as celebrações juninas ligadas a santos católicos, cantigas de roda, contos de fadas, superstições e figuras como a Mula sem Cabeça e o lobisomem, que já existiam no imaginário ibérico. Depois, imigrantes italianos, alemães, japoneses, árabes e de outras origens acrescentaram novas camadas, especialmente nas regiões onde se estabeleceram.
A mistura que criou algo novo
O resultado não é uma soma de partes separadas, mas uma fusão. O Saci é um bom exemplo: muitas versões apontam origem em mitos indígenas do Sul, com traços que foram sendo incorporados de tradições africanas e europeias, como o gorro vermelho. O Bumba meu boi mistura elementos de autos europeus, personagens indígenas e africanos e música local. É essa mistura que faz o folclore brasileiro ser tão variado de uma região para outra.
Linha do tempo: como o folclore ganhou nome e reconhecimento
A origem do folclore em 6 marcos
Antiguidade
Mitos, cantos e costumes passam de geração em geração pela oralidade.
Início do século XIX
O Romantismo europeu estimula a coleta de contos populares, como a dos irmãos Grimm.
1846
William John Thoms cria a palavra “folk-lore”, o saber do povo.
Fim do século XIX
Pesquisadores como Sílvio Romero começam a registrar a cultura popular brasileira.
1951
É aprovada a Carta do Folclore Brasileiro, revista em 1995.
1965
Decreto federal oficializa 22 de agosto como Dia do Folclore no Brasil.
Os estudiosos que ajudaram a registrar o folclore no Brasil
Por muito tempo, a cultura popular foi vista como algo “menor” pelas elites. A virada veio quando intelectuais passaram a pesquisar, viajar e documentar essas tradições com seriedade.
- Sílvio Romero: no fim do século XIX, reuniu cantos e contos populares brasileiros e foi um dos pioneiros nesse registro.
- Amadeu Amaral: defendeu o estudo metódico das tradições populares e escreveu sobre o dialeto caipira.
- Mário de Andrade: escritor modernista, fez viagens de pesquisa pelo país, coletou músicas e danças e incorporou esse universo em obras como Macunaíma.
- Luís da Câmara Cascudo: pesquisador potiguar, autor do Dicionário do Folclore Brasileiro, até hoje uma das referências mais consultadas sobre o tema.
Em 1947, foi criada a Comissão Nacional de Folclore, que reuniu pesquisadores e incentivou congressos. Um desses encontros, em 1951, aprovou a Carta do Folclore Brasileiro, documento que definiu o que deveria ser entendido como folclore no país. O texto foi atualizado em 1995, reforçando a ideia de que o folclore é dinâmico e também está presente nas cidades.
Por que o Dia do Folclore é 22 de agosto
A data homenageia exatamente o dia em que William John Thoms publicou a carta que criou a palavra. No Brasil, ela foi oficializada por um decreto federal de 1965 e passou a ser lembrada principalmente nas escolas, com atividades sobre lendas, brincadeiras e festas populares. Ao longo de agosto, muitas cidades organizam apresentações e feiras de cultura popular.
O que entra e o que não entra no folclore
Uma dúvida comum é saber se tudo o que é tradicional pode ser chamado de folclore. Os estudiosos costumam observar algumas características. A tabela abaixo ajuda a comparar.
| Característica | Folclore | Cultura de autor ou de massa |
|---|---|---|
| Autoria | Geralmente anônima ou coletiva | Autor ou empresa identificados |
| Transmissão | Oral, pela convivência e imitação | Livros, mídia, plataformas digitais |
| Mudança | Varia de lugar para lugar e com o tempo | Tende a manter a forma original |
| Aceitação | Depende da adoção pela comunidade | Depende de público e mercado |
| Exemplos | Cantigas de roda, lendas, festas juninas | Romances, novelas, músicas de artistas |
A fronteira nem sempre é rígida. Uma música de autor conhecido pode cair no gosto popular, ganhar versões e passar a ser cantada como se fosse de todos. Da mesma forma, piadas e histórias que circulam em grupos de mensagens são vistas por alguns pesquisadores como uma forma moderna de folclore.
Principais categorias de manifestações folclóricas
- Lendas e mitos: Saci, Curupira, Boitatá, Iara, Boto, Mula sem Cabeça.
- Festas e danças: festas juninas, Bumba meu boi, frevo, ciranda, congada, folia de reis.
- Música e cantigas: cantigas de roda, cantigas de ninar, emboladas, repentes.
- Brincadeiras: amarelinha, pião, pipa, cabra-cega, passa-anel.
- Linguagem popular: provérbios, trava-línguas, adivinhas, parlendas.
- Culinária e saberes: receitas tradicionais, remédios caseiros, técnicas artesanais.

Erros comuns ao falar sobre a origem do folclore
- Achar que folclore é coisa do passado: ele continua sendo criado e transformado, inclusive nas cidades e na internet.
- Resumir folclore a lendas: as histórias são só uma parte; festas, comidas, jogos e crenças também contam.
- Atribuir uma única origem a cada personagem: a maioria das figuras brasileiras mistura influências de várias culturas.
- Confundir a origem da palavra com a origem das tradições: o nome é do século XIX, mas as práticas são milenares.
- Tratar o folclore como “crendice”: ele expressa valores, medos, conhecimentos e a identidade de um povo.
Como ensinar e valorizar o folclore no dia a dia
Para pais, professores e curiosos, algumas atitudes simples ajudam a manter essas tradições vivas:
- Conversar com pessoas mais velhas da família e registrar as histórias, receitas e cantigas que elas lembram.
- Comparar versões de uma mesma lenda em diferentes regiões, o que mostra na prática como o folclore se transforma.
- Visitar museus de cultura popular, feiras de artesanato e festas tradicionais da sua cidade.
- Resgatar brincadeiras antigas com as crianças, sem precisar de nada além de espaço e criatividade.
- Consultar obras de referência, como o dicionário de Câmara Cascudo, e materiais de instituições culturais públicas.
Muitas manifestações também são reconhecidas oficialmente como patrimônio cultural imaterial. No Brasil, esse registro é feito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), cujo site traz a lista atualizada dos bens registrados e explica a história de cada um.
Perguntas frequentes sobre a origem do folclore
Quem criou a palavra folclore?
Foi o escritor e antiquário inglês William John Thoms, em 1846. Ele usou o pseudônimo Ambrose Merton numa carta à revista The Athenaeum, propondo o termo folk-lore para substituir expressões como “antiguidades populares”.
O que significa folclore ao pé da letra?
Significa “saber do povo”. Folk quer dizer povo e lore quer dizer saber ou conhecimento tradicional.
Qual é a origem do folclore brasileiro?
Ele nasceu da mistura das culturas indígenas, africanas e europeias, sobretudo portuguesa, ao longo da formação do país. Depois, imigrantes de várias partes do mundo também deixaram sua contribuição.
Por que o Dia do Folclore é comemorado em 22 de agosto?
Porque foi nessa data, em 1846, que a palavra folclore foi publicada pela primeira vez. No Brasil, o dia foi oficializado por decreto federal em 1965.
O folclore ainda está sendo criado?
Sim. Os pesquisadores consideram o folclore dinâmico. Novas expressões, piadas, histórias urbanas e adaptações de festas surgem e se espalham constantemente, inclusive pela internet.
Quem é o principal estudioso do folclore brasileiro?
Há vários nomes importantes, mas Luís da Câmara Cascudo costuma ser apontado como o maior deles, graças ao seu Dicionário do Folclore Brasileiro e a dezenas de outras obras sobre cultura popular.
Uma herança que continua em movimento
Entender a origem do folclore é perceber que ele não tem uma data de nascimento única. A palavra tem data, local e autor, mas o que ela nomeia é tão antigo quanto a vontade humana de contar histórias, celebrar e passar adiante o que aprendeu. No Brasil, essa herança ganhou cores próprias com a mistura de povos, e continua mudando a cada geração que canta, brinca e reconta.




