Você está preenchendo uma nota fiscal de entrada e o sistema pede um CFOP. Entre tantas opções, o número 1915 parece surgir sempre que alguém manda um produto para conserto. Mas, no fundo, é comum não ter certeza se é o código correto ou apenas uma suposição antiga.
O universo dos códigos fiscais tem centenas de combinações, e errar na escolha pode travar a emissão, gerar inconsistências contábeis ou chamar a atenção do fisco. O CFOP 1915 é um desses números que, por trás da aparente complexidade técnica, segue uma lógica simples — e conhecê-la evita dores de cabeça.
- CFOP 1915 significa “Entrada de mercadoria ou bem recebido para conserto ou reparo”, exclusivo para operações internas (mesmo estado).
- O primeiro dígito 1 indica que é uma operação de entrada de produtos no estabelecimento.
- É o par complementar do CFOP 5915, usado na saída para remessa ao conserto.
- Deve ser usado por oficinas, assistências técnicas e indústrias que recebem equipamentos para manutenção.
- O preenchimento correto evita rejeição da NF-e e problemas no SPED Fiscal.
- Por que o CFOP 1915 trava tanta nota fiscal — e como nunca mais errar?
- A relação invisível entre o 1915, o 5915 e o 1916 que todo emissor precisa entender.
- O que a tabela oficial esconde sobre o uso em operações interestaduais e no Simples Nacional.
- O passo a passo para preencher a NF-e sem disparar rejeição automática.
Por trás do número: o que ninguém conta sobre o CFOP 1915
O código 1915 não foi criado do nada. Ele faz parte do Sistema Nacional de Informações Econômico-Fiscais (SINIEF) e está na tabela oficial do SPED Fiscal desde 2009. Parece só um número, mas é uma linguagem padronizada que comunica ao fisco exatamente o que aconteceu com aquela mercadoria.
Muita gente acredita que, por ser um código de entrada, o bem passa a integrar o estoque de quem recebe. Na verdade, esse código sinaliza uma entrada transitória — o produto não é seu, veio para conserto e voltará ao dono. Essa distinção é fundamental para manter a escrituração fiscal limpa.
O CFOP 1915 é um código de entrada, mas a mercadoria que entra não pertence a quem recebe — ela só está ali de passagem.
Para mim, a ficha caiu quando entendi que o 1915 não é sobre comprar, é sobre receber para consertar. A partir daí, tudo fez sentido.
CFOP 1915: entenda o significado e a função do código

O CFOP 1915 é o Código Fiscal de Operações e Prestações usado para registrar a entrada de mercadoria ou bem recebido para conserto ou reparo, exclusivamente em operações internas — ou seja, quando remetente e destinatário estão no mesmo estado. Ele pertence ao grupo 1900, que reúne outras entradas não classificadas nos grupos anteriores.
A função desse código é informar ao fisco que a empresa não comprou o item, apenas o recebeu temporariamente para executar um serviço. Sem ele, a contabilidade confundiria essa movimentação com aquisição de estoque ou ativo, gerando distorções fiscais. Eu já cometi esse engano no início: tratei uma entrada para reparo como se fosse compra de estoque. O estorno deu mais trabalho que emitir certo da primeira vez.
O que diz a tabela oficial do CFOP?

A tabela instituída pelo Ajuste SINIEF 07/05, usada nacionalmente, descreve o código exatamente como: “Entrada de mercadoria ou bem recebido para conserto ou reparo”. Ele está registrado no SPED Fiscal e nas bases das SEFAZs estaduais. Nenhum estado pode alterar essa descrição.
Como decifrar o número: o 1 e o 9 explicados

Os quatro dígitos de um CFOP são estruturados. O primeiro indica o tipo de operação: 1 para entrada em operação interna, 2 para entrada interestadual e 3 para entrada com exterior. Portanto, o 1 do CFOP 1915 já sinaliza que é uma operação dentro do mesmo estado. O segundo dígito, 9, identifica que se trata de “outras entradas”, diferenciando de compras (grupo 1000), devoluções (grupo 2000) ou transferências (grupo 3000). Os dois últimos detalham a natureza específica: 15, no caso, para conserto ou reparo.
Quando o CFOP 1915 é usado? Na prática
O uso é acionado sempre que um estabelecimento recebe um bem de terceiro para executar manutenção, reparo ou conserto. A característica central é que o item permanece de propriedade do remetente; a empresa apenas presta serviço sobre ele.
Recebimento de equipamento para conserto: exemplos comuns
Uma oficina mecânica recebe um carro para funilaria. Uma assistência técnica autorizada aceita um notebook para troca de tela. Uma empresa de manutenção industrial retira um motor elétrico no cliente e dá entrada no seu galpão. Em todos esses casos, a nota fiscal de entrada deve ser emitida com esse código — desde que o cliente esteja no mesmo estado.
O que NÃO é entrada para conserto?
Se a mercadoria chega para ser usada como insumo, sofrer beneficiamento ou integrar um produto final, o CFOP muda. Por exemplo, a entrada de peças para estoque usa 1101 (compra interna). O recebimento de bem para industrialização por encomenda emprega 1901 ou 1902. Além disso, se a operação for interestadual, o código correto é o 2915 — nunca o 1915.
CFOP 1915 e CFOP 5915: o par de códigos para o mesmo negócio
Para cada entrada há uma saída correspondente. O CFOP 5915 é o código que o remetente utiliza ao enviar o produto para conserto. O 1915 e o 5915 são chamados de códigos espelho: um reflete o outro, só que em direções opostas da mesma transação.
Remessa para conserto: o CFOP 5915 na saída
Quando uma empresa despacha um equipamento quebrado, ela emite uma NF-e de saída com CFOP 5915 (“Remessa para conserto ou reparo”). Essa nota acompanha o bem até a oficina. O destinatário, ao receber, emitirá sua nota de entrada com o 1915. A remessa para conserto não é uma venda, portanto o valor do produto no documento é apenas para identificação e movimentação, não gera receita.
Retorno do conserto: o papel do CFOP 1916
Após o serviço, o bem retorna ao proprietário. A oficina emite uma NF-e de saída com CFOP 5916 (“Retorno de conserto ou reparo”), e o cliente, ao receber, usa o CFOP 1916 (“Entrada de retorno de conserto ou reparo”). Assim fecha-se o ciclo documental. Essa sequência (5915 → 1915 → 5916 → 1916) é essencial para rastreabilidade fiscal.
Como preencher a NF-e com o CFOP 1915 sem erro
O preenchimento envolve mais do que escolher o código correto. É preciso alinhar natureza da operação, CST/CSOSN adequado e as regras do regime tributário da empresa.
CST ICMS e CSOSN: qual usar
O CFOP não define a tributação; ele indica a operação. Para empresas do regime normal de ICMS, os CST ICMS mais comuns com o 1915 são: 00 (tributado integralmente) se a entrada for de bem cujo serviço será tributado normalmente, ou 10 (tributado e com cobrança do ICMS por substituição tributária) se houver retenção. Já no Simples Nacional, o CSOSN deve refletir a opção: 101 (com permissão de crédito) quando for possível crédito, ou 103 (sem permissão) se não houver. O erro mais trivial é usar CSOSN 900 (outros) para todos os casos — a fiscalização já rejeita automaticamente essa combinação.
PIS/COFINS na mesma nota: como funciona
O campo CST de PIS/COFINS também precisa bater com a realidade da operação. Para a entrada para conserto, a empresa que recebe não está adquirindo o bem, então geralmente se usa CST 04 (monofásico) ou 06 (alíquota zero) se a entrada não gerar crédito. Mas se a operação envolve tributação do serviço, é preciso consultar a legislação específica. O importante é que não haja conflito com o CFOP, ou a nota será rejeitada na validação.
Exemplo passo a passo de emissão
Suponha uma assistência técnica de smartphones que recebe um aparelho para reparo. No sistema emissor, ela deve: 1) Criar uma NF-e de entrada, com natureza “Entrada para conserto”; 2) Preencher o campo CFOP com 1915; 3) Selecionar o CST ICMS 00 (se for regime normal e o serviço for tributado); 4) No CSOSN (se for Simples) colocar 101 ou 103 conforme permissão de crédito; 5) No CST PIS/COFINS, escolher o código que reflita a tributação do serviço; 6) Informar os dados do remetente e do bem. Após a emissão, o sistema valida automaticamente. Se todos os campos forem coerentes, a nota será autorizada.
Na rotina de quem emite nota, a dica que sempre dou é testar em homologação. Já escapei de apertos feios porque a pré-validação apontou o deslize antes da transmissão oficial.
Perguntas frequentes sobre o CFOP 1915
CFOP 1915 é para operação interestadual?
Não. CFOP 1915 é restrito a operações internas. Para entrada interestadual de mercadoria para conserto, utiliza-se o código 2915. Usar 1915 em operação com remetente de outro estado gera rejeição imediata, pois o primeiro dígito 1 indica origem no mesmo estado.
CFOP 1915 no Simples Nacional: pode?
Sim, sem restrições. Empresas optantes pelo Simples Nacional utilizam o mesmo código 1915. A diferença está na seleção do CSOSN, que substitui o CST ICMS. O código permanece idêntico, pois a natureza da operação não muda.
Qual a diferença para o CFOP 2915?
O CFOP 2915 é o espelho do 1915 para operações interestaduais. Primeiro dígito 2 indica entrada com origem em outro estado. A descrição é a mesma: “Entrada de mercadoria ou bem recebido para conserto ou reparo”, mas o fisco entende que o remetente é de fora. A emissão errada entre 1915 e 2915 é uma das causas mais comuns de rejeição de NF-e.
Eu me lembro bem da primeira vez que tive que emitir uma nota com CFOP 1915. O sistema simplesmente não aceitava aquela combinação de CST. Depois de muito teste, percebi que o problema não estava no código em si, mas no entendimento da operação. Não adianta decorar tabelas; é preciso compreender o caminho que a mercadoria faz. Esse aprendizado me fez enxergar o CFOP não como um bicho de sete cabeças, mas como uma ferramenta que, se bem usada, protege o negócio. A verdade é que muitos profissionais subestimam a importância desse alinhamento e acabam convivendo com erros que, mais cedo ou mais tarde, vão bater à porta na forma de notificação fiscal. Se você entende a lógica do 1915, o resto flui.
O impacto do CFOP 1915 na sua escrituração fiscal
O uso correto desse código não é só para evitar rejeição na hora; ele molda como a movimentação aparece nos livros e declarações. Quando a escrituração está bem feita, as apurações de impostos tornam-se automáticas e transparentes.
Onde o código aparece no SPED Fiscal
No SPED Fiscal, cada nota de entrada com esse código é registrada nos blocos de documentos de entrada. O programa valida a combinação e a expõe no relatório de entradas. Erros nesse ponto podem distorcer o inventário e a base de cálculo do ICMS, pois o sistema pode interpretar como aquisição, gerando necessidade de retificação.
Como o ICMS é apurado com esse CFOP
Por tratar-se de entrada para conserto, a legislação do ICMS costuma diferir o imposto para o serviço de reparo, que será tributado no momento da saída da oficina com o CFOP 5916, incluindo a mão de obra e as peças aplicadas. Se o código estiver correto, a apuração do ICMS da entrada não será impactada indevidamente, evitando pagamento antecipado ou duplicado.
Erros comuns com o CFOP 1915 e como evitar rejeições
Os erros mais frequentes vêm do desconhecimento das regras de pareamento entre CFOP, CST e CSOSN. A boa notícia é que os sistemas modernos ajudam a barrar combinações impossíveis.
Combinações incompatíveis de CFOP, CST e CSOSN
Exemplos de combinações que geram rejeição: CFOP 1915 com CSOSN 900 (outros) para empresas do Simples; CFOP 1915 com CST ICMS 40 (isento) quando o serviço é tributado; ou CFOP 1915 com CST ICMS 60 (ICMS cobrado anteriormente) sem ter havido retenção na remessa. O ideal é sempre consultar a tabela de CST/CSOSN correspondente à natureza da operação e testar a nota em homologação antes de transmitir oficialmente.
Validações dos sistemas emissores de NF-e
As SEFAZs atualizaram as regras de validação nos últimos anos. Hoje, ao digitar o CFOP 1915, muitos emissores travam se o CST selecionado não for compatível com o grupo de entrada. Por exemplo, para operação com tributação integral, espera-se CST 00 ou 10, dependendo. Isso reduziu drasticamente as rejeições por erro humano, mas ainda exige conhecimento do usuário para interpretar a mensagem de erro.
Entradas para conserto: como o CFOP influencia PIS/COFINS
No campo do PIS/COFINS, o 1915 também age como uma bandeira. O sistema interpreta que não se trata de aquisição de insumo, e por isso não libera crédito automaticamente sobre o valor do bem.
Regras específicas para crédito de PIS/COFINS
Pela legislação, o crédito de PIS/COFINS é permitido apenas sobre bens e serviços utilizados como insumo na produção ou prestação de serviço. O mero recebimento do bem para conserto não gera crédito, pois o item não é insumo. No entanto, as peças que a oficina adquire para aplicar no reparo (CFOP 1101, por exemplo) podem gerar crédito. A emissão correta com esse código impede que o sistema contabilize indevidamente o valor da entrada como base para crédito, evitando autuações.
CFOP 1915 por segmento: quem usa e como
Diferentes segmentos aplicam o 1915, mas com particularidades na tributação e no fluxo documental.
Oficina mecânica: exemplo típico
Uma oficina de veículos recebe um carro para reparo no motor. Emite NF-e de entrada com o 1915, CST ICMS 00 (se for empresa normal), e o CSOSN adequado se for Simples. Ao mesmo tempo, adquire peças com CFOP 1101. Após o serviço, na saída do veículo, usa o 5916 e tributa a mão de obra e as peças aplicadas. Esse fluxo é auditado pela SEFAZ, que cruza as entradas (1915+1101) com a saída (5916).
Assistência técnica de equipamentos eletrônicos
Para uma assistência que repara celulares, o código é utilizado na entrada do aparelho. Muitas assistências são optantes do Simples Nacional, então o CSOSN escolhido deve ser o 101 ou 103. O código 1915 permite que o valor do celular não entre no cálculo do faturamento, já que o bem não é da assistência — isso evita distorção no limite do Simples.
Indústria que envia maquinário para manutenção
Uma fábrica que envia uma caldeira para manutenção em empresa especializada emite NF-e com CFOP 5915. A empresa de manutenção, ao receber, usa 1915. Após o serviço, emite 5916 e devolve. A indústria, no recebimento, usa 1916. O correto encadeamento garante que o bem volte ao ativo imobilizado sem incidência indevida de tributos.
Como a fiscalização eletrônica está mudando o uso do CFOP
Com o avanço tecnológico, o fisco cruza cada vez mais dados em tempo real. Esse código não escapa desse radar.
O cruzamento de dados entre CFOP, CST e CSOSN
A Receita Federal e as SEFAZs possuem sistemas que comparam as informações de entradas e saídas de um mesmo CNPJ, relacionando CFOPs com CSTs e CSOSNs. Inconsistências são sinalizadas para malha fiscal. Por exemplo, se uma empresa usa massivamente o 1915, mas declara CST de operação isenta, o sistema pode questionar a coerência.
O que esperar nos próximos anos
A tendência é a ampliação da validação em tempo real e a criação de novas regras de pareamento. Os sistemas de emissão de NF-e devem ficar ainda mais restritivos, e a necessidade de profissionais capacitados aumentará. Dominar o uso desse código hoje é um investimento para não ser pego desprevenido amanhã.
Resumo estratégico para não errar o CFOP 1915
Checklist rápido para emissão sem erro
- 01A Escolha Certa: Sempre verifique se a operação realmente é dentro do estado. Se o cliente for de outra unidade da federação, o código é 2915. Parece óbvio, mas é o erro mais comum entre iniciantes.
- 02Ponto de Atenção: Não confunda CFOP 1915 com compra de peças. O 1915 é só para o item que será consertado. As peças novas que você adquire para aplicar no serviço têm CFOP próprio, como o 1101.
- 03Na Prática: Antes de emitir a nota, faça um checklist: regime tributário, CST/CSOSN compatível, CFOP 1915, e se a natureza da operação está descrita como “entrada para conserto”. Teste em homologação.
Pouca gente sabe que o CFOP 1915, quando usado em sequência incorreta, pode inflar artificialmente o faturamento de empresas do Simples Nacional. Ao registrar o valor do bem recebido como se fosse receita, o limite de enquadramento pode ser falsamente aproximado. A correção na escrituração resolve, mas a prevenção é mais simples: basta entender o código.
Dominar os códigos fiscais pode parecer uma tarefa árdua, mas você já viu que a lógica do CFOP 1915 é linear. Cada detalhe que você acerta hoje é uma multa evitada amanhã.
Revise seus processos de emissão, converse com seu contador sobre as combinações de CST usadas e faça um teste com o 1915 em uma nota de homologação. A familiaridade vem com a prática.
O Fisco está cada vez mais atento, mas você pode andar na frente com informação de qualidade.
O que pouca gente sabe: O CFOP 1915 pode impactar a base de cálculo do ICMS sobre serviços de reparo que, por engano, são tributados como mercadoria. Ao isolar o bem do serviço, o código ajuda a manter cada tributo na sua esfera correta.

