Quem ouve a palavra ‘sodomia’ pela primeira vez muitas vezes sente que está por fora. A primeira reação costuma ser desconforto. É um termo que vem carregado de peso moral, mas que raramente é explicado com clareza.
A maioria das pessoas repete o que ouviu sem nunca ter consultado a fonte original. E aí está o problema: o sentido que circula por aí nem sempre corresponde à história real. Se você acha que sodomia é simplesmente ‘sexo entre homens’, talvez seja hora de revisar o que sabe.
O conceito nasceu de uma narrativa bíblica com camadas de interpretação que foram mudando ao longo dos séculos. Hoje, ele se desdobra em definições religiosas, jurídicas e sociais que muitas vezes se contradizem. Vamos desembaraçar isso.
- Sodomia é um termo com origem bíblica, ligado à cidade de Sodoma, mas seu significado exato varia conforme o contexto.
- No uso tradicional, refere-se a qualquer ato sexual não reprodutivo, especialmente sexo anal, independentemente da orientação sexual.
- A Bíblia, em Ezequiel 16:49-50, critica Sodoma por soberba e falta de hospitalidade, e não por atos homossexuais.
- No Brasil, a sodomia deixou de ser crime em 1830, e hoje não há lei que proíba atos sexuais consensuais entre adultos.
- O termo é frequentemente confundido com estupro, mas a prática em si pode ser consensual e faz parte da vida sexual de muitos casais.
O que pouca gente sabe é que o texto original nem mesmo menciona a palavra ‘homossexualidade’. A condenação explícita veio depois, com traduções e leituras influenciadas pelo contexto histórico. Ainda assim, o nome de uma cidade fundou um vocabulário que até hoje está nos dicionários e nos códigos penais de dezenas de países.
Em Ezequiel 16:49-50, o erro de Sodoma não foi sexual: foi soberba, fartura de pão e negligência com o pobre.
Sodomia: o que significa e por que o termo ainda gera dúvida

A definição objetiva de sodomia

Sodomia é um termo que designa atos sexuais não voltados à reprodução. No uso mais comum, refere-se ao coito anal, mas também pode incluir sexo oral e bestialidade. A palavra deriva do latim sodomia, que por sua vez vem de Sodoma, cidade mencionada na Bíblia.
Por séculos, foi usada como categoria jurídica e moral para condenar práticas sexuais consideradas ‘contra a natureza’. Hoje, o termo é menos técnico e mais histórico, mas ainda aparece em contextos religiosos e em discussões sobre criminalização da homossexualidade.
A dúvida persiste porque, dependendo de quem fala, sodomia pode significar desde um pecado capital até um ato consensual entre adultos — e essas duas leituras são inconciliáveis. Por isso, é essencial separar o conceito descritivo do juízo de valor.
Sodoma e Gomorra: a origem bíblica da palavra

O que aconteceu na cidade de Sodoma segundo a Bíblia
No livro de Gênesis, capítulo 19, dois anjos visitam a cidade de Sodoma e são hospedados por Ló, sobrinho de Abraão. Durante a noite, os homens da cidade cercam a casa e exigem que os visitantes sejam entregues para que possam ‘conhecê-los’ — um eufemismo para abuso sexual.
Ló tenta proteger os hóspedes, oferecendo as próprias filhas, mas a multidão insiste. Os anjos então cegam os agressores e ordenam que Ló fuja com a família, pois Deus destruiria a cidade. Sodoma e Gomorra são arrasadas por fogo e enxofre.
A narrativa é a base para a ideia de que o pecado de Sodoma foi a tentativa de estupro coletivo homossexual. No entanto, outras passagens bíblicas posteriormente ampliaram a lista de crimes da cidade, incluindo injustiça social e idolatria.
Por que o nome de uma cidade virou nome de um ato sexual
A associação direta entre Sodoma e práticas sexuais específicas começou a se consolidar no período do Segundo Templo e na literatura rabínica. O termo grego sodomia foi adotado pela teologia cristã primitiva para rotular atos sexuais considerados pecaminosos, especialmente o sexo anal entre homens.
A partir do século IV, com a ascensão do cristianismo como religião oficial do Império Romano, o termo passou a integrar códigos legais. O imperador Justiniano, no século VI, criminalizou a sodomia com pena de morte. Assim, o nome da cidade bíblica se transformou em categoria penal e moral que atravessou séculos.
Sodomia é o mesmo que sexo anal? Entenda as diferenças
O que é coito anal
Coito anal é a penetração do pênis no ânus do parceiro. Pode ocorrer entre pessoas do mesmo sexo ou de sexos diferentes. Trata-se de uma prática sexual com riscos específicos (como maior probabilidade de transmissão de ISTs sem proteção) e que exige consentimento, lubrificação e comunicação.
Médicos e terapeutas sexuais reconhecem a relação anal como parte da diversidade da experiência humana, sem que isso implique qualquer patologia ou desvio. O que determina o caráter saudável da prática é o consentimento, o respeito aos limites e o cuidado com o próprio corpo e o do parceiro.
O que mais pode ser chamado de sodomia
Historicamente, a definição de sodomia foi alargada para incluir praticamente qualquer ato sexual que não resultasse em procriação. Assim, o sexo oral e a bestialidade (zoofilia) também foram englobados sob o mesmo guarda-chuva.
Em textos medievais, por exemplo, a sodomia podia abranger até mesmo práticas heterossexuais como a masturbação mútua ou o coito interrompido. O elemento comum era a ideia de que a sexualidade só seria legítima se voltada à geração de filhos dentro do casamento.
Sodomia é crime no Brasil? O que diz a lei
O histórico da sodomia no Código Penal brasileiro
No período colonial, as Ordenações Filipinas, herdadas de Portugal, puniam a sodomia com penas severas, incluindo a morte na fogueira. Essa legislação vigorou até a independência do Brasil.
Em 1830, o Código Criminal do Império aboliu a criminalização da sodomia entre adultos e introduziu o crime de ‘ofensa à moral pública’ para atos em local público, sem referência específica à orientação sexual. Desde então, a prática consensual e privada nunca mais foi tipificada como crime no país.
Situação atual no Brasil e no mundo
No Brasil, a Constituição de 1988 garante o direito à intimidade e à vida privada. Em 2011, o Supremo Tribunal Federal equiparou a homofobia à discriminação racial, e em 2019 criminalizou a LGBTfobia. Portanto, a sodomia consensual entre adultos não é crime; o que é crime é a violência, o abuso e a discriminação.
No cenário global, porém, 61 países ainda criminalizam a homossexualidade. Em alguns, como Arábia Saudita, Irã, Iêmen e Sudão, a pena de morte é prevista para atos classificados como sodomia. Essas leis têm sido alvo de pressão internacional por violarem direitos humanos.
Quando eu descobri que o Brasil saiu na frente nessa questão, lá no século XIX, fiquei orgulhoso e aliviado.
Perguntas mais comuns sobre a sodomia
Sodomia pode acontecer entre homem e mulher?
Sim. A definição tradicional de sodomia nunca dependeu do sexo dos envolvidos, mas do tipo de ato. Um casal heterossexual que pratique sexo anal ou oral também está, tecnicamente, praticando sodomia — embora o termo raramente seja usado nesse contexto atualmente.
Sodomia é sempre uma relação forçada?
Não. O episódio bíblico que originou o termo envolve uma tentativa de estupro coletivo, o que levou muitos a associar sodomia a violência. No entanto, a prática em si pode ser perfeitamente consensual. Confundir os dois é um erro comum que precisa ser desfeito.
A palavra sodomia é ofensiva?
Depende do contexto. Em âmbitos religiosos conservadores, é um termo carregado de censura moral. Em conversas cotidianas, pode soar anacrônico ou pejorativo. Para falar sobre práticas sexuais de forma neutra, prefere-se usar o nome específico do ato (sexo anal, sexo oral), que não carrega o mesmo histórico de condenação.
Assunto pesado, eu sei. Mas a pesquisa me mostrou que evitar o tema só deixa o terreno livre para interpretações tortas. Eu mesmo cresci ouvindo que sodomia era um pecado hediondo, sem nunca me explicarem exatamente o que estava condenado ali. Quando fui ler Gênesis inteiro, a ficha caiu: a história fala de estupro e falta de hospitalidade, não de um relacionamento afetivo entre dois homens. Esse detalhe muda tudo.
Mas é justamente esse incômodo que me fez ir atrás das fontes. E o que encontrei mudou a forma como vejo o debate. Por isso, agora quero te levar para a parte menos conhecida — aquela que explica como o termo foi sendo moldado e por que é tão importante separar o joio do trigo.
O que a Bíblia realmente diz sobre o pecado de Sodoma?
A passagem de Ezequiel que mudou a interpretação
Enquanto Gênesis descreve uma tentativa de violência sexual, o profeta Ezequiel, escrevendo séculos depois, oferece uma lista completamente diferente dos pecados de Sodoma. Em Ezequiel 16:49-50, lê-se: ‘Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado.’
Essa passagem não menciona sexo. Fala de orgulho, indiferença social e egoísmo. Teólogos progressistas e até alguns conservadores reconhecem que essa é uma chave importante para reler o episódio de Gênesis: o erro fundamental de Sodoma foi a quebra da lei da hospitalidade num contexto de opulência e arrogância.
A questão da hospitalidade e o estupro coletivo
No mundo antigo do Oriente Próximo, a hospitalidade era um valor sagrado. Recusar abrigo ou violentar um hóspede era um crime gravíssimo, que podia atrair maldições. Quando os homens de Sodoma cercam a casa de Ló, estão violando esse código de forma extrema.
A insistência em ‘conhecer’ os anjos — que, para eles, eram apenas estrangeiros — era uma forma de humilhar o anfitrião e afirmar poder. O estupro, nesse contexto, era instrumento de dominação, não de desejo. Essa leitura ajuda a entender por que o foco da história não está na orientação sexual dos agressores, mas na violência e na transgressão social.
Por que a leitura homofóbica é considerada tardia
A interpretação que liga Sodoma exclusivamente à homossexualidade ganhou força na Idade Média, com a sistematização da teologia moral. Autores como Tomás de Aquino classificaram a sodomia como pecado contra a natureza, mas o foco original da narrativa era a violação da hospitalidade.
Estudiosos modernos, como John Boswell e Daniel Boyarin, argumentam que a associação automática entre o relato de Gênesis e a condenação da homossexualidade é uma leitura retrojetiva, que ignora o contexto cultural e linguístico do Antigo Testamento. Para eles, o texto bíblico condena a tentativa de estupro e a crueldade, não o amor ou o desejo entre pessoas do mesmo sexo.
Eu confesso que, até ler os estudos modernos, também associava automaticamente Sodoma à homossexualidade. Foi libertador entender que o foco original era outro.
Sexo anal consentido: desfazendo o estigma de ‘pecado’
A visão médica e psicológica sobre práticas não reprodutivas
Para a medicina contemporânea, o sexo anal é uma prática sexual comum e saudável, desde que realizado com consentimento e proteção. Profissionais da saúde recomendam o uso de preservativo e lubrificante à base de água para reduzir o risco de lesões e infecções.
A psicologia moderna não classifica nenhuma orientação sexual ou prática consensual como transtorno. A Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID) em 1990, e o Conselho Federal de Psicologia do Brasil proíbe profissionais de oferecerem tratamento de reversão desde 1999.
Como a saúde sexual trata o assunto sem julgamento
Educadores sexuais enfatizam que o importante é a comunicação entre parceiros, o respeito aos limites e a busca de prazer mútuo. Muitos casais, heterossexuais e homossexuais, incluem a prática sexual em sua vida íntima sem que isso represente qualquer conflito moral ou psicológico.
Profissionais de saúde abordam o tema com naturalidade, focando na prevenção de doenças e no bem-estar. A ideia de que determinadas práticas sexuais são intrinsecamente erradas não encontra respaldo na ciência, apenas em tradições religiosas específicas.
Sodomia e a lei: por que tantos países ainda criminalizam?
O caso dos 61 países e a pena de morte para atos consensuais
Em pleno século XXI, 61 países mantêm leis que criminalizam a homossexualidade. Destes, 11 preveem pena de morte para relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo, segundo o relatório da ILGA World de 2023. Os textos legais frequentemente usam o termo ‘sodomia’ ou expressões como ‘ato contra a natureza’.
Essas leis são herança direta do colonialismo europeu, que exportou códigos penais baseados na moral cristã para a Ásia, a África e as Américas. Apesar de pressões da ONU e de cortes internacionais, muitos governos alegam que a criminalização reflete valores culturais ou religiosos locais.
O Brasil foi pioneiro na descriminalização
Enquanto a maioria das nações ocidentais só descriminalizou a sodomia no século XX (como a Inglaterra em 1967 e os EUA em 2003, com a decisão Lawrence v. Texas), o Brasil aboliu a punição já em 1830. O Código Criminal do Império, o primeiro código penal autônomo da América Latina, simplesmente omitiu o crime de sodomia.
Esse pioneirismo, porém, não significou tolerância social imediata. A discriminação continuou por muito tempo, mas do ponto de vista legal, o país deu um passo significativo e precoce na separação entre moral religiosa e direito penal.
Do ‘crime contra a natureza’ à abordagem neutra
A expressão ‘crime contra a natureza’ apareceu pela primeira vez no direito romano e foi adotada por diversas legislações. Ela refletia a ideia de que certos atos sexuais violavam a ordem natural criada por Deus. Com o Iluminismo e a secularização, muitos países foram abandonando essa categoria.
Hoje, a tendência em democracias seculares é tratar a conduta sexual sob a ótica dos direitos individuais, da privacidade e da igualdade. A palavra sodomia vai sendo substituída por termos neutros, e o foco jurídico recai sobre a proteção contra abusos e violência, não sobre a moralidade dos atos.
A influência do movimento LGBTQIA+ na revisão dos termos
Nas últimas décadas, a militância LGBTQIA+ teve papel decisivo na descriminalização da homossexualidade e na revisão de leis que usavam o conceito de sodomia para perseguir minorias. Países como Índia (em 2018) e Botsuana (em 2019) derrubaram leis de sodomia por pressão de ativistas locais aliados a organismos internacionais.
Além disso, a resistência ao termo ‘sodomia’ dentro da comunidade é forte, justamente pelo peso histórico de opressão. O movimento prefere nomear as práticas pelo que são, sem o filtro pejorativo que as reduz a um estigma.
O que esperar para os próximos anos
A tendência global, ainda que lenta, é de progressiva descriminalização. Cortes constitucionais em países como Quênia e Singapura já sinalizaram mudanças. No entanto, o retrocesso em nações com forte fundamentalismo religioso, como Uganda (que aprovou lei anti-homossexualidade em 2023), mostra que a disputa segue intensa.
Para o Brasil, o desafio é assegurar que a igualdade formal se converta em proteção efetiva contra a violência e a discriminação. A história da sodomia ilustra como o direito pode ser usado tanto para oprimir quanto para libertar, e a vigilância é permanente.
Sodomia no contexto histórico: da Idade Média ao século XXI
As penas previstas na legislação medieval
Na Europa medieval, a sodomia era considerada um pecado nefando — tão terrível que não podia ser nomeado. As punições variavam: castração, fogueira, forca e, em alguns lugares, enterro vivo. O Tribunal da Inquisição, a partir do século XIII, passou a julgar casos de sodomia, embora muitas vezes delegasse a execução ao braço secular.
Em Portugal, as Ordenações Afonsinas (1446) e, depois, as Manuelinas e Filipinas, mantiveram a pena de morte para o ‘pecado de sodomia’, com confisco de bens. Essa tradição legal foi transplantada para o Brasil colonial, onde há registros de execuções até o século XVIII.
O uso político do termo ao longo do tempo
Além da função punitiva, a acusação de sodomia foi frequente instrumento de perseguição política. Na Idade Média, ordens militares como os Templários foram acusadas de sodomia para justificar sua dissolução e o confisco de seus bens. Na Renascença, adversários políticos podiam ser difamados com o rótulo.
Durante o regime nazista, a perseguição a homossexuais foi intensificada com base no parágrafo 175 do código penal alemão, que criminalizava atos ‘antinaturais’. A memória dessa perseguição impulsionou os movimentos de direitos civis no pós-guerra e, posteriormente, as lutas pela descriminalização em todo o mundo.
Como usar esse conhecimento no dia a dia
O Essencial em 3 Passos
- 01 Entenda a origem antes de repetir: Sempre que ouvir a palavra, lembre-se de que ela vem de uma história sobre violência e falta de hospitalidade — não de uma condenação genérica a todas as relações homossexuais. Verificar a fonte bíblica original (Gênesis 19 e Ezequiel 16) desmonta muitos mitos.
- 02 Use palavras com precisão: Em conversas sobre sexualidade, prefira o nome específico do ato (sexo anal, sexo oral) em vez de ‘sodomia’. Assim você evita o peso histórico de condenação e comunica exatamente o que quer dizer, sem ofender involuntariamente.
- 03 Separe crime de pecado, e ambos da saúde: No Brasil, atos sexuais consensuais entre adultos são legais. Quando o assunto é saúde, procure informação médica, não religiosa. E se for falar de fé, lembre-se de que há interpretações bíblicas muito mais focadas em justiça social do que em controle da sexualidade.
Esse aprendizado não é só acadêmico: a cada vez que você desfaz uma confusão entre que palavra é essa e o que ela realmente significa, está ajudando a reduzir o preconceito e a desinformação.
Você chegou até aqui porque queria entender, e isso já é um grande passo. Informação de qualidade é o antídoto contra o preconceito que se alimenta do desconhecimento.
Da próxima vez que ouvir a palavra sodomia, você terá bagagem para perceber se ela está sendo usada para informar, para condenar ou para manipular. E, se quiser aprofundar ainda mais, leia o capítulo 19 de Gênesis e o capítulo 16 de Ezequiel com seus próprios olhos — a leitura direta sempre ensina mais do que qualquer resumo.
O que pouca gente sabe: A sodomia já foi usada como justificativa legal para perseguir não apenas homossexuais, mas também hereges e inimigos políticos, independentemente de sua orientação sexual real.

