O pé de elefante de chernobyl é uma massa de combustível nuclear derretido, concreto, areia e aço que se formou no porão do reator 4 da usina de Chernobyl, na Ucrânia, nos dias seguintes à explosão de 26 de abril de 1986. Ele ganhou esse nome porque sua forma enrugada e cinzenta lembra a pata de um elefante. Quando foi encontrado, meses depois do acidente, emitia radiação suficiente para matar uma pessoa em poucos minutos de exposição.
Hoje o pé de elefante continua no mesmo lugar, sob a estrutura de contenção que cobre o reator. Sua radioatividade caiu muito em relação a 1986, mas segue perigosa. Neste artigo você vai entender como ele se formou, do que é feito, por que é tão duro, como foi fotografado, o que a ciência sabe sobre seu estado atual e o que o futuro reserva para o material.
Como o pé de elefante de chernobyl se formou
Na madrugada de 26 de abril de 1986, um teste de segurança mal conduzido no reator 4 provocou um pico de potência, seguido de explosões de vapor e hidrogênio que destruíram o núcleo. Sem resfriamento, o combustível de urânio atingiu temperaturas altíssimas e derreteu. Essa mistura de combustível derretido é chamada de corium.
O corium, com mais de 2.000 graus, escorreu pelas estruturas inferiores do reator, dissolvendo concreto, areia usada como proteção biológica, aço das tubulações e o revestimento de zircônio das barras de combustível. Ele desceu por corredores e canais de vapor até o nível do porão, onde esfriou e endureceu em formas irregulares. A mais famosa dessas formações é o pé de elefante, localizado no corredor 217/2.
Ele não é a única massa de corium no prédio. Há várias outras, com formatos e apelidos diferentes, e o volume total de material derretido é estimado em centenas de toneladas. O pé de elefante é o mais conhecido por ter sido o mais fotografado.
Do que ele é feito
A composição letal do corium de Chernobyl foi estudada por equipes soviéticas e, depois, ucranianas e internacionais. Em linhas gerais, a massa contém:
- Dióxido de silício (do concreto e da areia), que é o componente majoritário e dá o aspecto de vidro.
- Dióxido de urânio, o combustível nuclear, em proporção de poucos por cento.
- Zircônio, do revestimento das barras de combustível.
- Óxidos de ferro, cálcio, alumínio e magnésio, vindos das estruturas dissolvidas.
- Produtos de fissão altamente radioativos, como césio-137 e estrôncio-90, além de plutônio e outros elementos transurânicos.
O resultado é um material parecido com lava vitrificada, tão particular que recebeu um nome mineral próprio: chernobylita, um silicato de zircônio e urânio que só existe ali.
Radiação: o perigo em 1986 e agora
O pé de elefante foi descoberto em dezembro de 1986. As medições feitas na época indicaram algo em torno de 10.000 roentgens por hora na superfície. Para ter ideia, uma exposição de poucos minutos a esse nível seria suficiente para causar a síndrome aguda da radiação, e menos de cinco minutos seriam fatais para a maioria das pessoas. Os trabalhadores que precisavam se aproximar usavam câmeras em hastes, espelhos e permaneciam segundos no local.
A radioatividade atual é bem menor. Isótopos de meia-vida curta, como o iodo-131, desapareceram nos primeiros meses. O césio-137 e o estrôncio-90, com meia-vida próxima de 30 anos, já perderam mais da metade da atividade original. Ainda assim, estimativas apontam que ficar próximo da massa por algumas horas continua sendo perigoso, e ela não pode ser manipulada sem proteção.
| Momento | Situação estimada |
|---|---|
| Dezembro de 1986 | Cerca de 10.000 roentgens/hora; letal em minutos |
| Década de 1990 | Redução significativa; ainda letal em menos de uma hora |
| Hoje | Muito abaixo do original, mas perigosa em exposição de horas |
| Próximos séculos | Plutônio e outros transurânicos mantêm a massa perigosa por milhares de anos |
Esses números são aproximações usadas na literatura sobre o acidente; não há medição pública contínua da massa.
Por que ele é tão duro
Quando os cientistas tentaram coletar amostras, descobriram que a superfície do pé de elefante era dura demais para brocas comuns. As perfurações com brocas falharam, e há relatos de que a equipe recorreu a um fuzil para arrancar fragmentos por impacto. O vidro de silício resfriado rapidamente é extremamente resistente, e a densidade do material é alta por causa do urânio e do zircônio.
Com o passar dos anos, porém, a radiação interna vem degradando a estrutura do próprio material. Relatos de quem entrou no local nas décadas seguintes descrevem a massa mais quebradiça, com camadas superficiais que se soltam como poeira. Isso preocupa, porque a poeira radioativa é mais fácil de se espalhar do que um bloco sólido.
As fotografias e quem as fez
As imagens mais conhecidas do pé de elefante foram feitas por Artur Korneyev, engenheiro que entrou no reator dezenas de vezes ao longo dos anos para documentar as massas de corium. A foto mais famosa, de 1996, mostra uma figura humana ao lado da massa com o efeito granulado e as manchas de luz típicas da radiação atingindo o filme. Korneyev acumulou doses elevadas de radiação ao longo da carreira e passou a ter restrições para entrar na área.
As primeiras imagens, de 1986, foram feitas com câmeras remotas em hastes, justamente para evitar que qualquer pessoa ficasse no corredor por mais de alguns segundos.
Sarcófago, Novo Confinamento Seguro e o futuro
Ainda em 1986, o reator 4 foi coberto por uma estrutura de concreto e aço construída às pressas, conhecida como sarcófago. Ela foi projetada para durar algumas décadas e com o tempo apresentou rachaduras e risco de desabamento. Em 2016, uma nova estrutura em forma de arco, o Novo Confinamento Seguro, foi deslizada sobre o sarcófago original. Ela foi projetada para durar cem anos e permitir o desmonte do antigo sarcófago com equipamentos remotos.
O pé de elefante e as demais massas de corium continuam onde estão. Não há tecnologia viável para removê-las com segurança em curto prazo. O plano de longo prazo prevê a retirada gradual do material e o armazenamento como resíduo de alta atividade, mas isso depende de décadas de trabalho e de financiamento internacional. A guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, afetou o acesso e o monitoramento da usina em alguns períodos.
Quem se interessa por como a ciência lida com o que parece impossível pode ler também sobre os dinossauros que ainda existem e sobre a origem das lendas de dragões.
Mitos comuns sobre o pé de elefante
- “Ele ainda está derretendo.” Não. A massa esfriou há décadas; o calor gerado pela radiação hoje é pequeno.
- “Ele se move ou cresce.” Não. O que acontece é a degradação da superfície, que solta poeira.
- “Olhar para ele mata.” A radiação não passa por fotografias ou vídeos; o perigo é apenas para quem está fisicamente próximo.
- “Está a céu aberto.” Ele fica no porão do reator, sob duas estruturas de contenção.
Perguntas frequentes
O pé de elefante ainda é perigoso?
Sim. A radiação caiu muito desde 1986, mas ainda é suficiente para causar danos graves em exposições de horas. Ele contém plutônio e outros elementos que continuarão radioativos por milhares de anos.
Onde exatamente ele está?
No porão do prédio do reator 4, em um corredor identificado como 217/2, abaixo do núcleo original. O local está coberto pelo sarcófago de 1986 e, sobre ele, pelo Novo Confinamento Seguro.
Do que o pé de elefante é feito?
De corium: uma mistura de combustível nuclear derretido, concreto, areia, aço e zircônio, com aspecto de vidro. A maior parte é dióxido de silício; o urânio representa uma fração pequena, mas os produtos de fissão tornam o material altamente radioativo.
Alguém morreu por causa do pé de elefante?
Não há registro de morte diretamente causada pela massa, porque as equipes limitaram o tempo de exposição. As mortes por radiação em Chernobyl ocorreram principalmente entre bombeiros e operadores nas primeiras horas e dias do acidente.
Quanto pesa o pé de elefante?
Estimativas variam, mas costumam citar algo em torno de duas toneladas para a massa principal. O total de corium espalhado pelo prédio é muito maior.
É possível visitar o local?
Não. Visitas turísticas à zona de exclusão, quando permitidas, não incluem o interior do reator 4. O acesso ao porão é restrito a equipes técnicas com proteção e por tempo limitado.
O que levar dessa leitura
O pé de elefante de chernobyl é um registro físico do pior acidente nuclear da história: combustível derretido que atravessou o prédio e virou uma rocha vitrificada e radioativa. Quatro décadas depois, ele está menos ativo, mais quebradiço e ainda intocável, guardado sob duas camadas de contenção. Entender o que ele é ajuda a separar o fato do folclore que cresceu em torno da imagem.

