A história do folclore brasileiro é a história do encontro de três grandes matrizes culturais: a indígena, a africana e a europeia, principalmente a portuguesa. Essas três se misturaram ao longo de mais de cinco séculos e criaram lendas, festas, danças, cantigas, comidas e crenças próprias. O folclore não começou numa data definida. Ele se formou aos poucos, no cotidiano dos povos que viviam aqui e dos que chegaram depois. O estudo organizado desse patrimônio só ganhou força no século XIX, com escritores como Sílvio Romero, e se consolidou no século XX com nomes como Mário de Andrade e Luís da Câmara Cascudo. Desde 1965, o país celebra oficialmente o Dia do Folclore em 22 de agosto.
Nos tópicos a seguir, você vai ver de onde vem a palavra “folclore”, como cada matriz cultural contribuiu, quem foram os principais pesquisadores e por que essas tradições continuam importantes.
O que é folclore e de onde vem a palavra
A palavra vem do inglês folk-lore, que quer dizer algo como “saber do povo”. O termo foi proposto pelo pesquisador britânico William John Thoms em uma carta publicada em 22 de agosto de 1846. Ele queria um nome para o que até então se chamava de “antiguidades populares”: costumes, superstições, baladas e provérbios passados de geração em geração.
No Brasil, a definição mais aceita está na Carta do Folclore Brasileiro, aprovada no primeiro Congresso Brasileiro de Folclore, em 1951, e revista em 1995. Segundo esse documento, folclore é o conjunto das criações culturais de uma comunidade, baseado em suas tradições, expressas de forma individual ou coletiva, e que representa a identidade social desse grupo. As características mais citadas são:
- Aceitação coletiva: a manifestação é reconhecida e praticada pelo grupo, e não apenas por uma pessoa.
- Tradicionalidade: passa de geração para geração, muitas vezes de forma oral.
- Dinamicidade: se transforma com o tempo e incorpora elementos novos.
- Funcionalidade: cumpre um papel na vida da comunidade, seja religioso, educativo, festivo ou de convivência.
Esse último ponto ajuda a desfazer um engano comum: folclore não é coisa parada no passado. A revisão de 1995 deixou mais claro que se trata de cultura viva, que muda conforme a sociedade muda.
As três matrizes: as raízes da história do folclore brasileiro
A herança indígena
Antes da chegada dos portugueses, os povos originários já tinham um universo rico de mitos, rituais, cantos e conhecimentos sobre a natureza. Muitos seres do imaginário brasileiro têm raízes indígenas, como o Curupira, protetor das matas, a Iara, ligada às águas, e o Boitatá, a cobra de fogo. O Curupira aparece até em uma carta do padre José de Anchieta, escrita em 1560, um dos registros mais antigos de uma figura folclórica no país.
A contribuição indígena vai muito além das lendas. Está na mandioca e em seus derivados, como a farinha e o beiju, no uso de ervas medicinais, na rede de dormir, no vocabulário do dia a dia e em danças e festas que mais tarde se misturaram a elementos de outras culturas.
A herança africana
Milhões de africanos escravizados foram trazidos ao Brasil ao longo de mais de três séculos. Mesmo sob violência e repressão, eles preservaram e recriaram suas tradições. Dessa resistência nasceram ou ganharam força manifestações como a capoeira, o maracatu, o jongo, o samba de roda, o congado e muitos ritmos que marcam a música brasileira.
A influência africana também aparece na culinária (acarajé, vatapá, uso do dendê), nas religiões de matriz africana, em instrumentos como o atabaque e o berimbau e em personagens do imaginário popular. O Saci-Pererê, por exemplo, é visto por estudiosos como uma figura que juntou traços indígenas, africanos e europeus ao longo do tempo.
A herança europeia
Os portugueses trouxeram o catolicismo popular, com suas festas de santos, procissões e promessas. As festas juninas, dedicadas a Santo Antônio, São João e São Pedro, são o exemplo mais claro: chegaram como celebrações religiosas europeias e ganharam no Brasil comidas de milho, quadrilhas e um sotaque bem nosso. Também vieram contos de fadas, cantigas de roda, a literatura de cordel (que tem parentes na Península Ibérica) e figuras como o lobisomem e a mula sem cabeça, adaptadas ao contexto local.
Depois, imigrantes italianos, alemães, japoneses, árabes, poloneses e de outras origens somaram novas camadas, sobretudo no Sul e no Sudeste.

Do registro à pesquisa: como o folclore passou a ser estudado
Durante séculos, o folclore foi apenas vivido, sem ser estudado. Os primeiros registros vieram de cronistas, missionários e viajantes estrangeiros, que descreviam costumes e crenças com olhar de estranhamento. O estudo sistemático começou no século XIX, quando o Brasil independente buscava uma identidade nacional.
Século XIX: o romantismo e os primeiros coletores
Escritores românticos, como José de Alencar, valorizaram o indígena e as tradições populares como símbolos da nação. Celso de Magalhães publicou estudos sobre poesia popular na década de 1870. O grande marco foi Sílvio Romero, que reuniu e publicou os Cantos Populares do Brasil e os Contos Populares do Brasil na década de 1880, defendendo a ideia de que a cultura brasileira nasceu da mistura das três matrizes.
Século XX: o modernismo e Mário de Andrade
Com o movimento modernista, o interesse pelo popular ganhou nova força. Mário de Andrade viajou pelo Norte e pelo Nordeste, registrou músicas, danças e falas e usou esse material em sua obra, como em Macunaíma. Em 1938, quando dirigia o Departamento de Cultura de São Paulo, organizou a Missão de Pesquisas Folclóricas, que gravou e documentou manifestações em vários estados nordestinos e do Norte. Esse acervo é até hoje uma referência.
Outros nomes importantes desse período são Amadeu Amaral, que defendia métodos mais rigorosos de pesquisa, e Renato Almeida, estudioso da música popular e um dos organizadores do movimento folclórico nacional.
Câmara Cascudo, o grande pesquisador
O potiguar Luís da Câmara Cascudo é provavelmente o nome mais associado ao tema. Ele dedicou a vida a pesquisar lendas, superstições, gestos, alimentação e linguagem do povo brasileiro. Seu Dicionário do Folclore Brasileiro, publicado pela primeira vez em 1954, continua sendo uma obra de consulta essencial. Também escreveu livros como Geografia dos Mitos Brasileiros e História da Alimentação no Brasil.
Institucionalização: comissões, congressos e o Dia do Folclore
Em 1947 foi criada a Comissão Nacional de Folclore, ligada ao órgão brasileiro de cooperação com a Unesco. Ela organizou congressos, estimulou comissões estaduais e, em 1951, aprovou a Carta do Folclore Brasileiro. Em 1958 surgiu a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, que deu origem ao atual Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, hoje vinculado ao Iphan. Em 1965, um decreto federal instituiu o 22 de agosto como Dia do Folclore, em referência à data da carta de Thoms.
Linha do tempo do folclore brasileiro
Antes de 1500
Mitos, rituais e saberes dos povos indígenas.
Séculos XVI a XIX
Encontro com tradições europeias e africanas. Anchieta cita o Curupira (1560).
1846
William Thoms cria o termo “folk-lore”.
Década de 1880
Sílvio Romero publica cantos e contos populares.
1938
Missão de Pesquisas Folclóricas, de Mário de Andrade.
1947 e 1951
Comissão Nacional de Folclore e Carta do Folclore Brasileiro.
1954
Câmara Cascudo lança o Dicionário do Folclore Brasileiro.
1965
22 de agosto vira oficialmente o Dia do Folclore.
1995
Carta do Folclore é revista e reforça a ideia de cultura viva.
As principais manifestações do folclore brasileiro
O folclore do país é tão diverso quanto o próprio território. Para entender melhor, vale separar as manifestações por tipo:
| Tipo | Exemplos | Matriz predominante |
|---|---|---|
| Lendas e mitos | Curupira, Iara, Boitatá, Saci, Mula sem cabeça, Boto | Indígena, com misturas africanas e europeias |
| Danças e folguedos | Bumba meu boi, maracatu, frevo, ciranda, quadrilha | Mistura das três matrizes |
| Festas populares | Festas juninas, Folia de Reis, Festa do Divino, Círio de Nazaré | Europeia (catolicismo popular), com elementos locais |
| Música e cantigas | Cantigas de roda, jongo, samba de roda, repente, coco | Africana e europeia |
| Literatura oral e escrita | Contos populares, provérbios, parlendas, trava-línguas, cordel | Europeia, adaptada no Nordeste |
| Culinária | Tapioca, acarajé, pamonha, canjica, paçoca | Indígena, africana e europeia |
| Artesanato e saberes | Cerâmica, rendas, cestaria, ervas medicinais | Indígena e europeia |
Diferenças regionais
Cada região tem sua marca. No Norte, a forte presença indígena aparece nas lendas amazônicas e no festival de bois de Parintins. O Nordeste concentra o bumba meu boi, o cordel, o repente, o maracatu e as grandes festas juninas. No Sudeste, destacam-se a Folia de Reis, o congado e o jongo. O Centro-Oeste tem as cavalhadas e o cururu. No Sul, há o fandango, as tradições gaúchas e a influência de imigrantes europeus.

Por que o folclore continua importante
Conhecer a história do folclore brasileiro ajuda a entender quem somos. Ele guarda conhecimentos sobre natureza, alimentação e convivência que não estão em livros didáticos. Também é fonte de renda para muitas comunidades, que vivem do artesanato, das festas e do turismo cultural.
Várias manifestações já foram reconhecidas como patrimônio cultural imaterial pelo Iphan, como o samba de roda do Recôncavo Baiano, o frevo, o Círio de Nazaré e o complexo cultural do bumba meu boi do Maranhão. Algumas também receberam reconhecimento internacional da Unesco. A lista de bens registrados cresce com o tempo, por isso vale consultar o site do Iphan para ver a relação atualizada.
Folclore na escola e em casa
O mês de agosto costuma movimentar as escolas com atividades sobre lendas, brincadeiras e cantigas. Para quem quer ir além da data, algumas ideias simples ajudam a manter as tradições por perto:
- Conversar com os mais velhos da família e registrar histórias, receitas e cantigas que eles conhecem.
- Visitar festas populares da sua cidade ou região e prestar atenção nos detalhes: roupas, músicas, comidas.
- Ler autores que pesquisaram o tema, como Câmara Cascudo e Monteiro Lobato, que popularizou o Saci entre as crianças.
- Conhecer museus e centros de cultura popular, físicos ou virtuais.
- Brincar de cantigas de roda, parlendas e trava-línguas com as crianças.
Erros comuns ao falar sobre folclore
- Achar que folclore é só lenda. Lendas são apenas uma parte. Comida, dança, música, artesanato, crenças e brincadeiras também fazem parte.
- Tratar como algo do passado. O folclore é dinâmico. Novas versões de lendas e festas surgem o tempo todo.
- Usar “folclore” como sinônimo de mentira. No dia a dia, dizer que algo “é folclore” virou sinônimo de boato, mas o sentido original é de saber popular legítimo.
- Esquecer a contribuição africana e indígena. Por muito tempo, essas matrizes foram tratadas como secundárias, quando na verdade são centrais.
- Confundir religião com folclore sem cuidado. Crenças religiosas de matriz africana ou indígena devem ser tratadas com respeito, não como fantasia ou curiosidade exótica.
Perguntas frequentes sobre a história do folclore brasileiro
Quem criou o folclore brasileiro?
Ninguém em particular. O folclore é uma criação coletiva, formada pela mistura de tradições indígenas, africanas e europeias ao longo dos séculos. O que existe são pesquisadores que o estudaram e registraram, como Sílvio Romero, Mário de Andrade e Câmara Cascudo.
Por que o Dia do Folclore é comemorado em 22 de agosto?
Porque foi em 22 de agosto de 1846 que William John Thoms publicou a carta em que propôs o termo “folk-lore”. No Brasil, a data foi oficializada por decreto federal em 1965.
Qual é a lenda mais antiga do Brasil?
É difícil apontar uma só, porque os mitos indígenas existiam muito antes de qualquer registro escrito. Entre os registros documentados, o Curupira é um dos mais antigos, citado por José de Anchieta em 1560.
Quem foi Câmara Cascudo?
Luís da Câmara Cascudo foi um historiador, folclorista e escritor nascido em Natal, no Rio Grande do Norte. É considerado um dos maiores estudiosos da cultura popular brasileira e autor do Dicionário do Folclore Brasileiro.
O folclore muda com o tempo?
Sim. A própria Carta do Folclore Brasileiro reconhece que as manifestações são dinâmicas. Uma festa pode ganhar novos ritmos, uma lenda pode ganhar versões diferentes em cada região, e tudo isso continua sendo folclore.
Onde posso aprender mais sobre o folclore brasileiro?
Boas fontes são os livros de Câmara Cascudo, o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, o site do Iphan, que lista os bens do patrimônio imaterial, e os museus de cultura popular espalhados pelo país. Conversar com os mestres da cultura popular da sua região também ensina muito.
Uma história que segue sendo escrita
A história do folclore brasileiro começou nas aldeias indígenas, atravessou os navios portugueses e os navios negreiros, ganhou forma nas vilas e fazendas e chegou às cidades, às escolas e às telas. Ela foi registrada por pesquisadores, mas é mantida mesmo por quem dança, canta, cozinha e conta histórias. Enquanto houver gente repassando esses saberes, essa história continua.





